quarta-feira, 25 de março de 2015

NOTA #8 [17/03/2015] (RJ) Círculo de Estudos da Idéia e da Ideologia

Em defesa de Daciolo e, por conseguinte, em defesa do Partido

(ou sobre um fantasma que nos assombra: a classe trabalhadora)

Mais uma vez o Companheiro Daciolo vem sofrendo duras críticas de militantes e lideranças do Partido Socialismo e Liberdade. Antes mesmo das eleições, determinados setores já o olhavam com desconfiança, não somente por exercer uma prática religiosa peculiar, cujo o amor em Cristo é forte e determinado – mas que é constantemente interpretado como “fundamentalista” – , como também por fazer parte de setores minoritários dentro Partido (mas extremamente combativo) na seção do RJ, liderado pela Companheira Janira Rocha. No entanto, apesar destes “poréns”, a maior parte da militância e as lideranças aceitaram a candidatura do Cabo, muito em virtude de sua corajosa liderança na grande greve dos bombeiros do RJ ocorrida há alguns anos. E os mais intransigentes tiverem que engolir a candidatura, pois o Estatuto partidário a legitimava.

Apesar do apoio inicial, via-se um desconforto aqui e ali e em alguns uma aposta velada de que a candidatura do Daciolo não emplacaria. E, no entanto, o que se viu foi uma das mais lindas e formidáveis campanhas eleitorais para o legislativo de todos os tempos da política brasileira – digna da história do Psol! Praticamente sem a estrutura do Partido, colhendo fundos ao mesmo tempo que pedia votos, numa campanha de recursos escassíssimos, regada por grandes caravanas e com um esforço impressionante de sua base, Daciolo conseguiu a terceira vaga de deputado federal do RJ no Partido nas últimas eleições com quase 50 mil votos. Quase o dobro do quarto colocado, Companheiro Renato Cinco, que teve intenso apoio estrutural do Partido assim como de sua legislatura como vereador, e que será o beneficiário direto de uma acalentada expulsão partidária do agora Deputado Daciolo, pois é herdeiro imediato da vaga. Daciolo foi beneficiado pelo coeficiente eleitoral alavancado pelas candidaturas dos Companheiros Chico Alencar e Jean Wyllys, embora com a mesma votação conseguisse a vaga também em outros partidos.

A vitória do Daciolo foi um raio no Partido. Ninguém esperava. Como um convidado indesejado que entra na festa pela porta dos fundos (de serviço?), Daciolo se tornou a grande incógnita nos últimos cinco meses. E as respostas a esta incógnita são as mais variadas. Vão desde militantes e eleitores psolistas que o ofendem diariamente nas redes sociais à vigilância policialesca ideológica de alguns setores do Partido, marcando cada passo de sua conduta. Neste cenário, não é difícil imaginar o clima de guerra desenhado. É bem verdade que o próprio Daciolo coopera um pouco para isso. Se tivesse um pouco mais de prudência em suas falas, acho que metade dos conflitos que gerou não teria acontecido (aliás, vejo ele numa solidão imensa no mandato). De todo modo, quando “cada grão fora do prato” é visto como “traição”, fica realmente difícil saber o que dizer para não desagradar a exigente militância carioca.

Quem é Daciolo? Fui nascido e criado em Inhaúma, bairro que chamo de subúrbio do subúrbio, porque fica exatamente entre Méier e Madureira, e que tem como principais pontos de referência o Metrô e um cemitério. Como típico bairro suburbano, Inhaúma é desprovida de infraestruturas básicas, notadamente de aparelhos de lazer e cultura. A educação é vista primordialmente como caminho para uma oportunidade de emprego (um concurso público, por exemplo) e bem menos como uma experiência de desenvolvimento intelectual. Quando vejo Daciolo, me identifico imediatamente. Por quê? Porque quando vejo Daciolo, vejo meus vizinhos, vejo meus amigos de infância, familiares. Alguns evangélicos, outros militares. Pessoas comuns, classe trabalhadora como outra qualquer, eivadas de vacilações ideológicas. A diferença entre meu vizinho e Daciolo é que este cabo bombeiro é um gênio da política: liderança extremamente corajosa (no Partido, coragem comparável com a do Freixo no enfrentamento com as milícias), de uma sinceridade inigualável (aliás, poderia ser um pouquinho menos…), de uma confiança no povo que faria um maoista convicto se enrubescer, de uma disposição de trabalho absurda – enfim, no mínimo, um grande quadro do Partido.


Votei no Daciolo. Não foi somente um dos gestos mais convictos da minha vida, como foi um ponto importante de virada na minha relação com o Partido. Me filiei após a empolgante campanha da “Primavera Carioca” de 2012. Esta filiação foi mediada pela minha participação no Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia (CEII), coletivo de trabalho prático-teórico que tem como um de seus pilares fundamentais a formação política. Portanto, minha aproximação com o Psol foi de muita militância, mas também de muito estudo. Com os companheiros e as companheiras do Círculo estudei intensamento o Partido, desde o Estatuto e as teses congressuais às falas nas redes sociais de psolistas anônimos, mas ávidos em participar da politica. Parte destes estudos geraram textos, publicados como notas de trabalho e disponibilizados no nosso site (www.ideiaeideologia.com.br). Neste percurso, tive uma alteração de humor gradativa com o Partido: fui da paixão freixeana à resignação de representar apenas 3% da população. Então, me perguntei: por que diabos um Partido que faz das tripas coração para ser um representante do povo pode ser tão ignorado por este mesmo povo?

Há tempos abandonei as teses imediatistas pautadas na ideia de falsa consciência e congêneres. Se tem alguma coisa que me embrulha o estômago é esquerdista que desconsidera a capacidade de decisão do trabalhador. Meu tempo de DCE acabou. Também acho insuficiente a tese autovitimizadora de que nossa incapacidade vem do esmagamento perpetrado pela pequena política oficial. De fato ela existe, mas, em última instância, nossos posicionamentos são escolhas nossas que fazemos para ter o apoio popular (que não vem). Portanto, a explicação se dá, ao menos também, por outra via. Passados um pouco mais de dois anos de filiação, me permito agora, em mais este momento decisivo para o Partido, quando estamos decidindo o futuro do mandato do Daciolo, um balanço político partidário cujo o mote é aquilo que a esquerda jamais poderá deixar de ter: autocrítica. O que se segue não é somente uma defesa do Daciolo, mas também a tentativa de traçar um diagnóstico do Partido hoje – obviamente, desde a visão limitada do meu ponto de vista. Daciolo é aqui considerado como uma espécie de ponto de cego, uma “marca muda”, que revela uma estrutura sintomática partidária que arrasta o Psol à paralisia.


1) “Je suis Amarildo”? Não, nós não somos Amarildo!

Voltemos a falar de vizinhos. Há quase vinte anos, lá pelos meus 15 anos de idade, soube de uma história que nunca mais esqueceria: uma vizinha, que tinha apenas a convivência mínima do “bom dia” diário, foi terrivelmente assassinada pelo tráfico, junto com mais duas mulheres. O que se dizia é que elas “deviam”. O assassinato foi brutal: cortaram a cabeça das três e as colocaram juntas numa sexta de lixo na rua Canitar. O falatório na minha rua no dia foi imenso. O Jornal O Povo, que naquela época (não sei hoje) tinha mais sangue em suas páginas do que o Hemorio, publicou na primeira página uma foto com as cabeças das três enfileiradas no chão. O jornal circulava de mão em mão e minha mãe fez o possível para eu não ver. Mas não teve jeito. Descendo a rua, indo jogar bola, dei de cara com a foto no jornaleiro. As pessoas se acotovelando para ver o jornal e eu parado, estarrecido, vendo aquele rosto, conhecido, mas morto, petrificado – sem o resto do corpo. Os amigos do lado brincando de Mortal Kombat, dando fatality um na cabeça do outro, e eu com ânsia de vômito (depois a ânsia parou e também fui também brincar de Mortal Kombat…). Mas aquela imagem, de uma cabeça conhecida sem corpo, ficou me atormentando dias, me causando os piores pesadelos, que até hoje, volta e meia, retornam.

A partir deste triste episódio fui ficando cada mais atento a certas coisas que aconteciam ao meu redor. Mais pessoas que “deviam”, morriam. Amigos de futebol que do dia pra noite “sumiam”. Gente muito próxima, que amava, fazendo a “coisa errada” (e “pagando” por isso). Enfim, a realidade da periferia se descortinava. E, contudo, talvez por uma questão de sobrevivência, ao mesmo tempo que tomava consciência da situação, ia também criando uma indiferença, uma perigosa indiferença, em relação a essas atrocidades. Bicho, não tem jeito, é foda. A vida é muito dura. Sem uma certa dose de escapismo, a existência é insuportável. Então a gente cria uma espécie de esquizofrenia: por um lado, vive-se razoavelmente feliz, com comida na mesa, um teto pra dormir e, de vez em quando, até dando pra queimar uma carne no final de semana (isso do meu horizonte, de classe média baixa); e, por outro, uma brutal violência urbana alimentada, principalmente, pela falta de perspectiva da juventude.

Como já disse algumas vezes, o pior vilão do pobre é o hábito. A situação é difícil, mas a gente suporta. Aí a situação fica um pouco mais difícil, a gente chia, reclama, mas acaba suportando e empurrando com a barriga (afinal, não tem o que fazer). Alguns descobrem a Igreja, começam a ir todo final de semana no culto, e a vida melhora muito. As coisas ruins começam a ter uma explicação. Inclusive, para alguns a vida melhora objetivamente, porque a doutrina organiza minimamente a vida. A classe média sacaneia o dízimo, mas a disciplina que a doutrina religiosa impõe ajuda a organizar a existência material das pessoas. Tal como um MBA de Empreendedorismo, só que muito mais barato. Isso dá um sossego, embora, no geral, tudo permaneça o mesmo. Outros simplesmente ampliam a esquizofrenia, ao ponto de dar um giro e começar a gostar de coisas que não deveria, como a andar pela rua, ver um corpo, e achar normal, a “aceitar” certas mortes (“Ah, esse mereceu mesmo”), a achar bonito as balas traçantes sem destino cortando o céu da noite… fica até poético. A violência que se torna habitual cria um regime de sensibilidade que desloca constantemente nosso poder de indignação. E é aí que entra a questão do caso Amarildo.

Para quem conhece um pouco o mundo do tráfico, sabe que casos como o do Amarildo são corriqueiros. É sempre a mesma desgraceira: um sujeito que tem uma renda miserável (hoje menos, graças ao bolsa família, e a gente tem que engolir isso), vários filhos pra criar, vive num barraco que é um cômodo e um banheiro, arruma dinheiro de bico e em bico, etc, etc, e, num belo dia, um traficante oferece a ele, sei lá, uns vinte reais, pra dar um recado, mais nada, a uma boca do outro lado do morro. E aí o cara pensa: “Porra, um recado! Não é arma, não é pó, não é dinheiro. É uma merda de recado!”. E aí o cara aceita. Só que nisso acontecem algumas coisas. Primeiro, o impacto de vinte reais a mais na renda. É um biscoito que compra pras crianças. Uma batata com frango. Um fiado no bar que você pode quitar. Depois, o traficante, sabendo o impacto que essa grana tem na vida da cara, sabe que agora pode dispor dele. Ainda tem a vizinhança que, de fofoca em fofoca, coloca na boca do povo que “fulano de tal agora tá no crime”. Aí, ferrou. Esse cara que aceitou os vinte reais do tráfico pode nunca ter botado 1 grama de pó no nariz (embora, provavelmente, vá se entregar ao álcool), pode lutar que nem um filho da puta para os filhos não irem para o caminho ruim, mas… não tem jeito. Sair disso é dificílimo. Agora, imagina este cenário para jovens de doze e treze anos, cujo os pais trabalham o dia inteiro, muitos no final de semana, e sequer sabem direito o que está acontecendo (por isso que os avós tem uma função essencial nas famílias mais pobres, porque são eles que sabem o que acontece com as crianças no dia a dia). O tráfico tem ao seu dispor um imenso exército (literalmente) de mão de obra de reserva para capturar. Por isso que, acertadamente, a esquerda (não o PT…) insiste em defender que a resposta correta à violência nas periferias não pode ser policial, mas política e social. É erva daninha: matou um, aparecem três no lugar. O problema é que essas situações são corriqueiras. O hábito é o Diabo. Enquanto só acontece com o filho do vizinho, a gente vai levando. Mas quando a gente fica sabendo que o nosso filho também entrou nessa, já era. Alguns com a família mais estruturada conseguem sair, mas a maioria não.

Aí, num dia como em outro qualquer, você tá lá jantando em frente à televisão, e vê a notícia que a população do morro tal desceu e que queimou ônibus, pneus, fez o saralho. Até aí, nada demais. Mas a mesma notícia insiste nos outros dias. Sabe-se lá como, os movimentos sociais locais conseguem decodificar o que está acontecendo na opinião pública, abrindo brecha na imprensa. E aí a grande imprensa (que tem muita força, mas não é o Big Brother) se vê a obrigada a noticiar o ocorrido. Mas como ela não está interessada em solucionar a causa do problema, mas aquela situação específica (no fundo, tirar aquele bando de favelado do asfalto), ela particulariza o ocorrido. E assim, num misto de resistência e acidente, surge o Caso Amarildo, por exemplo. Em termos políticos, isso é bom? Isso é muito bom. Quando a repressão policial fica pipocando na mídia, o efeito no dia a dia é imediato. Alguns policias recuam, seguram um pouco mais a onda. Outros, que já atravessaram a barreira da institucionalidade, continuam os maus tratos – esses daí não tem jeito, gozam com a morte de pobre. No entanto, todo mundo sabe que esse estágio de relativa paz vai durar apenas alguns meses. Pode ser que algumas mudanças institucionais ocorram. Mas, no geral, todos sabem que depois tudo volta ao “normal”.

Bom, e nestas situações como age a esquerda, principalmente a esquerda partidária? Como praticamente não temos inserção comunitária e nossa origem social é, em grande parte, classe média zonal sul / tijucana, ficamos sabendo do ocorrido – ou pelo menos somente nos afetamos – pela… grande imprensa! “Mas, alto lá! Eu leio Gramsci! Sei interpretar as entre linhas dos noticiários. Sei que o Caso Amarildo é um problema estrutural, e não um caso isolado”. Beleza, mas o problema principal não é esse. O problema é que nossa reação veio somente depois da divulgação do ocorrido na grande imprensa. Ela pode não ter pautado nossa interpretação, mas pautou nossa afecção. A ideologia cede vencendo. Nossa afetação não é orgânica à situação. A gente sabe do mundo e o mundo sabe de nós pela opinião pública. Não por acaso que ficamos todos serelepes quando uma ação do Partido sai na coluna do Anselmo Góes. A opinião púbica é até o tanque em que lavamos nossa roupa suja! Parece que uma notícia sobre o Partido nos dá estatuto de existência.

Algum militante mais atento pode objetar: “Pô! Mas disputar a opinião pública é importante!”. Sim. O problema é que a disputa da opinião pública não se dá amparado pela própria opinião pública. É o lastro material de existência que garante a força na disputa. Quando o William Waack fala aquele montão de besteira no Jornal da Globo ele está amparado pelo capital financeiro. Usando um exemplo da esquerda, quando o Guilherme Boulos concede uma entrevista não é porque é um ex-aluno da USP, mas porque é uma grande liderança de um movimento social enorme e consistente. Ele pode escrever uma coluna na Folha e no dia seguinte liderar uma ocupação. Qual liderança de esquerda hoje tem essa força? Certamente, não do Psol. Basta mencionar a situação vexatória que passamos na ocasião da morte do cinegrafista Santiago. Nos escondemos como covardes diante de um menino (que podia ser militante do Partido…) que cometeu um erro absurdo, mas lutando, como nós. O Freixo teve quase que pagar de Dalai Lama para sairmos minimamente ilesos na opinião pública. Estávamos ali no limite de uma “Carta aos Brasileiros”: “Olha, Globo. Olha, classe média que vota em nós. Fiquem tranquilos! Nós somos super da paz. Esse negócio de violência não é com a gente não. Esse negócio de pegar em armas e fazer Revolução ficou pra trás”. Nós só não combinamos com a classe trabalhadora este tipo de pacifismo.

E por que dependemos tanto da opinião pública? Porque nossa base social é quase exclusivamente composta de universitários “esclarecidos”, que oscila desde esquerdistas e liberais de bom senso a legalistas e bolsonarianos (pois é… eles votam em nós) . É ruim ter esta base social? Logicamente que não. Mas é muito, mas muito pouco. Nem na própria Universidade somos maioria. E o pior, grande parte desta mesma base social não é orgânica ao Partido e só nos conhece via opinião pública, inviabilizando a luta pedagógica. Parte do crescimento do eleitorado do Psol no RJ se deveu ao sucesso do “Tropa de Elite 2″. Sem Diogo Fraga a “Primavera Carioca” jamais teria acontecido. Isso torna o Freixo um líder artificial? Não! Ele já era uma grande liderança do Partido antes do filme. Já tinha feito o que fez contra as milícias, e da forma mais heroica possível. E, mesmo assim, fez muito certo em aproveitar a onda do filme e difundir suas propostas. Na melhor maneira leninista, Freixo sabe que não há “momento adequado” para a política, pois o momento adequado é sempre o aqui-e-agora. O problema é que isso gerou uma espécie de monstrengo partidário: nós temos uma puta liderança, de alcance nacional, mas com uma base frágil, sem lastro na classe trabalhadora. É como uma Ferrari com motor de um Fusquinha. O Partido tem caminhado para ampliar sua base? Sim. Muitos militantes têm feito esforços consideráveis nesse sentido. Mas a nossa situação hoje ainda é muito incipiente. É só acompanhar as aparições do Freixo em público: quando fala no Largo da Machado, lota, quando faz caminhada na Maré, somos meia dúzia.

E esta nossa base partidária prioritariamente universitária nos gera um segundo problema: ela acusa o lugar social de onde falamos. E isto transparece na forma como nos afetamos com os problemas sociais, como, por exemplo, no caso Amarildo. Pois, além de ser uma afetação tardia, sem vinculação concreta na luta de classes, ela gera um repulsa pela própria classe trabalhadora. Pra quem vive um caso Amarildo por dia, soa como falso, deslocado, “de fora” ver um professor sofrendo deveras pela família da vítima. Quando nas últimas eleições o Pezão deu um riso sarcástico como resposta à pergunta ”Cadê o Amarildo” feita pelo Companheiro Tarcísio, nós interpretamos de imediato como maldade, como se tivéssemos acabado de desvelar o Darth Vader. No entanto, o riso do Pezão foi um riso cínico vitorioso: cínico, porque ele sabe que o caso Amarildo é apenas mais um caso entre muitos e que, passando o tempo da polêmica, tudo voltará ao “normal”, e vitorioso (Pezão é competente no que se propõe. Ninguém é governador de um estado como o do Rio de Janeiro ao acaso), porque este estado de “normalidade” como status quo essencial para sua vitória não é questionada pela pergunta do Tarcísio, porque o povo sabe que esta é uma pergunta deslocada, sem efeitos efetivos na realidade. Somos o Partido que “fala demais e não faz nada”. Enquanto o PMDB, que todo mundo sabe que é composto por canalhas, ao menos criaram as UPAs. Eduardo Paes ampliou em 300% a rede de atendimento. Tudo OS, mas ampliou. Em princípio, o povo não quer saber se é OS ou não, pois precisa com urgência de atendimento. A gente precisa ver de forma menos moralista a máxima malufiana do “rouba, mas faz”. Nossa leitura do assistencialismo é sempre vitimizadora, quando deveríamos reconhecer que os famigerados ”centro sociais” são conquistas legítimas da classe trabalhadora, e que devemos dialogar com estas conquistas.

Vejam, não se trata de medir sentimentos. Aliás, creio, sinceramente, que parte dos nossos militantes sofre de verdade pelas famílias das vítimas. O problema é que soa descompassado. Não é “enraizado”. Por exemplo, no final do ano passado uma criança foi morta barbaramente no Alemão com uma bala perdida na cabeça. A imagem da criança baleada percorreu as redes sociais. E, para meu espanto, foi insistentemente ignorada, ou mesmo criticada como “excessivamente violenta” – inclusive por psolistas. Não rolou nem um notinha oficial do Partido, de executiva, de núcleos… nada. Estava próximo do Natal, não convinha difundir uma imagem tão violenta (é sério, eu li isso como argumento). E por que a ignoramos? Porque simplesmente ela não caiu na opinião pública, esta medusa que amamos disputar. Ora, é óbvio que vai soar falso um sujeito que na rua grita “Je suis Amarildô” e que ao mesmo tempo não é sequer capaz de divulgar uma imagem de uma criança morta barbaramente porque é demasiado violenta. Então nosso sofrimento pelo Amarildo aparece como falso, como deslocado. E este deslocamento acaba gerando uma imagem horrorosa, que geralmente cai no esteriótipo do intelectual que quer “aproveitar” a pobreza para se promover. Quem faz estudos de favela sabe o quão comum é este esteriótipo, tornando muito difícil a aproximação da universidade com a comunidade. Além disso, a direita se aproveita muito bem disso. Nas eleições de 2012, lembro da quantidade enorme de besteiras que escutava sobre o Freixo. Boatos, implantados aqui e ali, mas que ganham força de verdade, principalmente quando nossa imagem já é vacilante.

Por favor, não me entendam mal. Não quero em hipótese alguma diminuir o trabalho intenso que alguns militantes do Partido fizeram e ainda fazem no encaminhamento do caso Amarildo. É porque não podemos dar um passo sem autocrítica. A autocrítica é a alma da esquerda. O meu esforço aqui é de expor um posicionamento que visa contribuir para a nossa própria militância. Mas, às vezes, a autocrítica precisa ser forte o suficiente para sustentar o problema que mais tememos - que pode estar na nossa cara, mas que nos recusamos a ver. Nós somos um Partido cuja base é composta prioritariamente por universitários pequeno burgueses – isto é fato. Superar isso é muito difícil, porque nos impõe uma mudança de estilo de vida que não estamos dispostos a fazer. E que é indispensável fazermos, se quisermos continuar a luta militante, pelo menos na direção que queremos que é superar o capitalismo. Mas, por enquanto, precisamos ao menos assentir nossos erros, nossas limitações.

Por fim, um último giro. Porque o nosso principal problema ainda não é a imagem que a classe trabalhadora tem de nós (acreditem, isso é corrigível). O problema muito, mas muito mais grave, é a imagem que nós temos da classe trabalhadora, principalmente a mais pobre. É aqui que voltamos ao Daciolo.


2) Daciolo é de direita?

É forte o movimento que pede a expulsão do Daciolo. Ao que parece, tem até uma festa marcada esta semana em comemoração, com mais de mil pessoas confirmadas (pelo Facebook, é claro). Será na Praça São Salvador, a nossa Estação Finlândia. Eu não entendo muito bem o porquê desta festa. A expulsão de uma liderança do Partido, após menos de quatro meses de exercício de um cargo importante no Estado, deveria nos ensejar momentos de forte reflexão, e não de festa. Quando um companheiro ou uma companheira erra, erra, imediatamente, todo o Partido. E no caso de uma expulsão desta envergadura, o erro é galáctico. Ninguém escapa. Mas a história humana está aí repleta de exemplos de barbáries regadas a muita festa. Antropofágicas, inclusive. Esta, creio, não é muito oswaldiana. Nesta festa é o próprio macunaíma que está na caldeira, sob os olhos ávidos dos “justiceiros”. Não é porque tem diploma que se é menos bárbaro.

Mas, afinal, o que fez, desta vez, Daciolo? Digo desta vez porque a cabeça dele já esteve a prêmio neste curto espaço de tempo de mandato. Ele andou tirando foto com quem não devia. Nossa política de imagem é rigorosa, esse mole ele não podia ter dado. Andou pedindo militar no Ministério das Forças Armadas. Que sacrilégio! Ele quer a volta da ditadura! Apesar de termos comido o pão que o diabo amassou nas ruas nos últimos anos justamente com ministros civis na pasta. Tá bom – a gente conjectura – seria pior com um militar. Mas, desta vez, não! Ele passou dos limites! Mexeu na alma do Partido! Infringiu os sacrossantos Direitos Humanos! Mas, afinal, o que Daciolo disse? Reproduzo abaixo a sua fala no Congresso que gerou toda essa celeuma.

“Boa tarde presidente. Boa tarde a todos.

Prisão preventiva. Entendimento jurisprudencial, entendimento dos tribunais: no passado, 81 dias, no futuro, no presente, 124 dias. Quer falar o quê, Daciolo? Eu tenho militares presos, há um ano e cinco meses, presos na prisão preventiva. Do que você tá falando, meu filho? No domingo, vou estar agora no domingo em Bangu 1, ou melhor, Bangu 9, no GEP e no BEP. Eu tô falando do caso Amarildo. Onde eu tenho militares, 25 militares, respondendo por um crime que não cometeram. 12 desses estão presos e um faleceu dia 13. Cardíaco, morreu. Adquiriu ataque cardíaco, problemas cardíacos na prisão. Chefe de família. Um filho de sete meses. Uma criança. E eu quero deixar bem claro: vamos solicitar a presença dos Direitos Humanos da Presidência da República. Juntos somos fortes. Deus está no controle”

Fim de fala.

Na publicação do Facebook, o vídeo com a fala é acompanhado do seguinte texto:

“TV Daciolo

QUEREMOS JUSTIÇA PARA OS PMs DO CASO AMARILDO.

Há um ano e 5 meses militares estão presos preventivamente, sem julgamento ou condenação. Precisamos ir até o fim neste processo

Assim como precisamos esclarecer os casos de Igor Mendes e Rafael Braga, e todos os presos políticos do nosso Estado.

Neste domingo a partir das 09 horas estaremos visitando o BEP, o GEP e o presídio de Bangú 9, colocando nosso mandato a disposição das lutas contra as injustiças aos trabalhadores e ao povo carioca.

Solicitaremos a presença do Ouvidor Nacional de Direitos Humanos, Sr Bruno Renato Teixeira, para estar presente conosco.

Juntos Somos Fortes

Nenhum passo daremos atrás

Deus está no controle”

Assisti o vídeo e reli este texto umas trezentas vezes. Eu não vi nada, absolutamente nada de errado. Até pensei que tinha visto a fala errada. Mas perguntei no Facebook e me disseram que todo o imbróglio era em volta desta fala mesmo. Não compreendi a reclamação geral. Juro, não compreendi. O que entendi: Daciolo denuncia que há militares presos de forma irregular, pois já passou o período jurisprudencial de prisão preventiva, com a situação grave de um deles ter morrido em decorrência de complicações de saúde criadas pela própria prisão, e que pedirá o apoio dos Direitos Humanos da Presidência da República para ajudá-lo neste caso de injustiça. Uma ação parlamentar típica de um esquerdista, digna de um Deputado pelo Psol. Mas… não foi assim que grande parte da militância e muitas lideranças interpretaram. Foi quando um amigo me acudiu pelo chat: “Cara, você não viu o que ele falou? Ele disse que os policiais que estão presos por causa do caso Amarildo não cometeram o crime”. Foi então que a ficha caiu.

Daciolo está sendo condenado pelo disse, não pelo que fez. Então, vamos por parte. Primeiro, vamos analisar o que ele fez, para deixar claro o objeto de discordância. Depois analisemos o que ele disse, o puro enunciado. O que ele fez? Como disse, ele fez uso de seu mandato de parlamentar para fazer a denúncia de prisões injustas. E isso é tão verdade, e não mero corporativismo como alguns vêm acusando, que no texto de divulgação do vídeo ele solicita esclarecimento dos casos de Igor Mendes, Rafael Braga e “todos os presos políticos do nosso Estado”. Como disse provocativamente meu amigo Silvio Pedrosa: “Digam aí: qual o parlamentar do PSOL (ou qualquer outro partido) já se manifestou sobre os presos por perseguição política no Rio de Janeiro?”. Os Direitos Humanos se chamam Direitos Humanos Universais, e são Universais porque cobrem toda a humanidade. Preto, branco, amarelo, rico, pobre, deficiente, idoso, criança, homem, mulher, liberal, comunista, anarquista, traficante e… policial, etc, enfim, todos os seres humanos. Correto? “Ah, mas é o caso Amarildo!”. E daí! Não é a mera particularidade de um caso que determina uma jurisprudência, mas justamente o contrário, senão o Direito perderia sua própria razão de ser, na medida que busca sustentar ferramentas de julgamento minimamente idôneas. Ou será que estamos nos permitindo suspender subitamente os direitos humanos? Direitos humanos para os policiais do caso Amarildo, pode não? Para eles é “policial bom é policial morto”? Bom, espero que não seja essa a nossa intenção.

Então, Daciolo está sendo condenando pelo que disse. Vejam, antes de entrarmos nos meandros do que foi dito, um pequeno ponto de atenção. Um parlamentar do Partido está sendo condenado a expulsão pelo que disse. Vejam, ele não está tomando uma advertência formal, uma crítica pública, nada disso. Ele está sendo condenado a expulsão. Isso é muito sério. Isso é muito grave. Uma expulsão pode acabar com uma trajetória política, pode levar um sujeito ao ostracismo definitivo – e, o que é muito pior, um conjunto imenso de pessoas perderão a sua representação política. Por isso, ao meu ver, todo passo neste caso tem que ser dado com muita cautela. Sem roupantes de estrelismos ou histrionismos. É a letra fria do nosso Estatuto que tem que nos guiar. Nem mais, nem menos. Afinal, como podemos lutar contras as injustiças do mundo se somos injustos dentro de nossa própria casa?

Pois bem, o que disse exatamente Daciolo? Eis o trecho fatídico: os policiais do caso Amarildo estão “respondendo por um crime que não cometeram”. Matuto, matuto, e me pergunto: qual o problema real dessa frase? Uma prisão preventiva não é condenação, ela serve para auxiliar as investigações ou para evitar novos delitos. Inclusive, ela não viola a presunção de inocência. Portanto, passado o período de prisão preventiva, os policiais precisam ser soltos. E, até que sejam condenados, sem chance de recursos, eles são inocentes. Portanto, eles estão respondendo (leia-se, ainda presos) por um crime que não cometeram. Isso é presunção de inocência. E isto serve para qualquer cidadão e, portanto, serve também para policiais, inclusive os implicados no caso Amarildo. Um militante pulula revoltado na minha frente: “Mas calma aí! As evidências são claras! O Amarildo entrou no carro da polícia. A câmera do carro é desligada. Uma gravação é identificada. Há testemunhas que dão relato que houve tortura. É errado dizer que eles são inocentes!”. De fato, há fortes evidências de que alguns policiais que estavam na UPP naquela noite estão envolvidos no desaparecimento do Amarildo. Mas com isso será que podemos condená-los sem julgamento? Sem uma investigação detalhada?

Vamos mudar o nosso objeto de denúncia e supor um outro cenário. Ao invés de policiais, um traficante com folha corrida de maldade na comunidade. Ele é preso. Há fatos e testemunhas aos montes para condená-lo. Todo mundo sabe que ele matou muita gente, inclusive gente inocente. E pelo o quê vamos lutar? Vamos lutar para que ele tenha um julgamento justo e a oportunidade de ter um novo convívio social. O mesmo militante esbraveja comigo, mais indignado: “Mas como você pode fazer tal inversão? Você está dizendo que a esquerda tem que tratar da mesma maneira criminosos e policiais? Oprimidos e opressores?”. Mas a gente acha realmente que os policiais são nossos opressores? Nós temos uma visão tão estreita assim da luta de classes? Não seriam os policiais igualmente trabalhadores? E, digo mais, a opressão no policial incide de forma ainda mais covarde. Pois ele é oprimido duplamente: diretamente, como qualquer outro trabalhador, e indiretamente, quando o Estado o forma para ser um capataz de trabalhador. O Estado tira dele a humanidade duas vezes: uma vez como trabalhador e a outra vez impedido-o de se identificar com os outros trabalhadores. Daciolo faz a justiça que parte da esquerda, por conveniência, evita fazer.

Mas alguém ainda, teimosamente, poderia retrucar dizendo que este “incidente” do Daciolo é um acúmulo de outros “incidentes”, e que sua história no Partido está manchada. Ah é? Então vamos fazer um pequeno inventário do que este Cabo fez neste curto espaço de três meses de mandato e, a partir daí, tiraremos a conclusão se ele tem histórico de liderança de esquerda ou não. Olhem a lista.

- Assumiu sua herança indígena.

- Luta pela aprovação da Proposta de Emenda à Constituição, 82 de 2007, que garante autonomia funcional e prerrogativas aos integrantes da Advocacia-Geral da União.

- Apoio na luta contras os atrasos das bolas de pos graduação da CAPES.

- Denúncia das condições precárias de trabalho dos guarda vidas da região oceânica.

- Apoio na luta pela volta das atividades aquáticas no Complexo Esportivo Caio Martins.

- Reivindicação de concurso público para bombeiros e guarda vidas do RJ.

- Criação do projeto de lei que revoga o aumento nos salários dos parlamentares.

- Não a estadualização dos hospitais federais do Rio de Janeiro! Contra a privatização da área da saúde! Não as OS’s!

- Denúncia de trabalho precarizados dos trabalhadores de segurança pública durante o carnaval.

- Crítica ao ajuste fiscal do governo e seus impactos nas universidade federais.

- Defesa por um processo eleitoral limpo nas eleições para o sindicato da Comlurb.

- Apresentação de uma PEC que vai acelerar o processo de votação de Iniciativa Popular.

- Criação do projeto de Lei, de número 529/2015, que tornar crime heidondo os crimes qualificados contra os servidores da Segurança Nacional e Magistrados (a meu ver, muitos companheiros interpretaram este projeto de lei de forma apressada. Isso é um debate que devemos fazer).

- Indicação de emenda que ao Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2015, no valor de R$ 1.000.000,00 (um milhão de Reais), para atender a reestruturação do Hospital Municipal de Itaocara (Prefeitura Psol).

- Defesa de investigação da tragédia que matou 21 profissionais civis no Centro de Lançamento de Alcântara em 2002.

- Apresentou requerimento para que seja realizada Audiência Pública na Comissão de Segurança Pública para discussão das medidas de segurança adotadas e o legado das Olimpíadas de 2016 para o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro.

- Defesa da Pec 53/2007, que garante ao servidor de cargo em comissão de livre nomeação e exoneração, direito a aviso prévio, seguro desemprego, FGTS, entre outros.

- Luta contra o inconstitucional pedágio da Linha Amarela.

- Luta em favor dos Militares Especialistas da Aeronáutica dos concursos de 1994 a 2001 que foram excluídos injustamente.

- Defesa do projeto de Resolução no. 25, de 2015, para alterar o art. 202, parágrafo 6, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados. A proposta prevê que o prazo de votação entre o 1º e o 2° Turnos de uma PEC será de, no máximo, trinta sessões

- Defesa da PEC 404 dos Militares da Defesa Nacional.

- Defesa da PEC 300 da Segurança Pública.

- Criação do projeto de lei 177/15, em parceria com deputado Edmilson Rodrigues (Psol-PA), que concede anistia aos policiais do estado do Pará, do Amazonas, do Acre, do Mato Grosso do Sul, do Maranhão, de Alagoas, do Rio de Janeiro e da Paraíba, por terem participado de movimentos de reivindicação por melhores salários e condições de trabalho.

- Visita ao Hospital Clementino Fraga Filho, Hospital do Fundão, com defesa da Emenda Orçamentária de R$ 3.000.000,00 para o fechamento e ampliação dos leitos desta unidade

Isso tudo em menos de três meses. Repito: três meses! É inegável a capacidade de trabalho do Daciolo. E esta disposição a serviço da esquerda! Excetuando uma ou outra que merece um debate mais cuidadoso, a imensa maioria das propostas defende princípios claramente socialistas. Ao meu ver, um quadro como esse tem que ser, no mínimo, muito respeitado. Mas nós queremos expulsá-lo. Por quê? Dizem: “porque ele é de direita!!!”. Mas ele é de direita como? Onde? Por quê? Ou melhor: ele é de direita para quem? Qual imagem de direitista tem a esquerda que julga Daciolo

3) Para além dos “narcisismos das gigantescas diferenças”

Pesquisando na internet, tive a felicidade de encontrar uma matéria que estava proposta a responder minha inquietação. O título dela é “O Psol elegeu um reacionário?”. É uma fonte de esquerda razoavelmente legítima, pois é uma publicação da Carta Capital. Ela é meio petista, eu sei, mas a gente releva, não? Até porque a matéria contém fala de algumas lideranças do Partido, o que dá credibilidade! Ah! Como adoramos o nosso tanque de lavar roupa suja! Mas, o que diz a matéria?

Como diz o título, ela se pergunta se o Daciolo é um reacionário. Vejam, ela não pergunta se o Daciolo é um direitista qualquer, brando, conversador. Não, não. A situação é braba: trata-se de um direitista reacionário! Mas, quais são os parâmetros do que seja um reacionário estão implicados na matéria? Para descobrirmos isso, a gente tem que partir da metodologia utilizada. A matéria não fornece diretamente esses parâmetros. Ela parte deles como dados, como óbvios, como um conhecimento compartilhado previamente com o leitor. Por isso que esta reportagem, ao estilo do video tape rodrigueano, é uma excelente testemunha do nosso senso comum de esquerda (sim, a esquerda também tem seu senso comum). Como os parâmetros são óbvios para o leitor, então ela parte diretamente das caracterísitcas do Daciolo que corresponderiam a este senso comum de esquerda. Vamos a eles.

Primeiro problema, Daciolo é militar. Mas o Psol não é contra militares. Certamente temos algumas razões históricas para temê-los, mas também temos muitas outras razões para tê-los como fortes aliados. Ou será preciso citar nomes como Prestes, Lamarca ou Mariguela? Mas Daciolo não é um militar qualquer. Ele é um militar que defende a “união do povo com os militares”, contra ditaduras e a falsa democracia que vivemos. Ora, mas este não é um apelo semelhante que Prestes fez na época da Coluna? E Lamarca, que largou o Exército e ingressou na luta armada porque acreditava que só assim seria um verdadeiro militar servindo ao povo? Tá bom, tá bom, Daciolo está longe de ser um Prestes ou um Lamarca. Mas… calma aí! Por que não? Se então surgisse entre nós um sujeito com o espírito de um Prestes ou um Lamarca, nós o rejeitaríamos? “Ah, Carlos, não viaja! Daciolo como um Lamarca?! Não pira!”. Bom, parece oportuno lembrar a avaliação que uma das lideranças da VPR fez sobre Lamarca: “O Capitão Lamarca não possui um QI satisfatório, à altura de ser um líder revolucionário. É um elemento de caráter volúvel, não tem posição definida, suas decisões são tomadas seguindo suas tendências emocionais. Suas qualidades militares são limitadas, tem limites de aproveitamento prático do conhecimento técnico que possui. É pouco engenhoso”. Curioso, porque Daciolo sofre críticas semelhantes. Nosso nobre Cabo não é muito versado em Gramsci, não compartilha das palavras do métier de esquerda, e, convenhamos, isso é um forte motivo de desconfiança. Além disso, ele é um desequilibrado! Propor um militar no Ministério das Forças Armadas é um descalabro! É a volta da ditadura (embora, na mesma frase, ele tenha se posicionado contra)! Ademais, é um sujeito emotivo demais. Ele até poderia fazer parte do Partido, de um núcleo, mas ficando ali quietinho, mas um mandato é demais. É preciso compostura. Fala em “Nenhum passo daremos para trás” e “Juntos somos fortes” toda hora – parece um louco! É um perigo um cara desse com um mandato. De fato, Daciolo é um perigo (mas deveríamos nos perguntar: para quem?).

Segundo problema, Daciolo é evangélico. Sinal amarelo. Atenção total. Mas o Psol também não é contra os evangélicos. Ao menos, não todos. São bem vindos aqueles que aceitam sem reclamações as “regras” do Partido. Aborto? Aceita ou sai fora. Ser contra o aborto não tem o direito nem de usar o banheiro da sede. Como dizem alguns militantes, usando com enfâse o pronome possessivo, “este é o meu Partido”. “Mas estas posições são democraticamente estabelecidas nos Congressos!”. Sim, não questiono isso. Mas estas posições deliberadas são regras ou posições, encaminhamentos para problemas de nosso tempo? Porque se for regra, quebra a possibilidade de que as posições possam ser mudadas. Afinal, as regras vão impedir que militantes contra o aborto entrem ou fiquem no Partido, e, em consequência, esta regra nunca mais será alterada. Ou será que estamos apelando para um “silêncio consentido”? Você pode ser contra o aborto, só não precisa dizer? Só para deixar claro, sou absolutamente a favor da legalização do aborto e milito por esta causa. Mas isso não me impede de dialogar com militantes contra aborto, e nem de desejar tê-los como companheiros de Partido. Posso concordar com 90% dos posicionamentos dele, é quadro excepcional, militante feroz, mas vou querê-lo fora do Partido por causa de um ponto específico que discordamos? Eu quero abrir o Partido. Não quero ele “para mim” – Partido de esquerda não é propriedade privada. E o nosso triste drama é que o Daciolo vem cumprindo direitinho com o “silêncio consentido”. Eu pelo menos não conheço fala pública dele se posicionando contra o aborto. Muito menos contra o casamento homoafetivo. Então, porque ele vem sendo taxado insistentemente por muito militantes de “religioso fundamentalista”?

O problema não é porque Daciolo é militar e evangélico. O problema real é que ele não se encaixa na imagem de militante de esquerda que inconscientemente idealizamos o tempo todo, e que é alimentada por muitas de nossas lideranças. Em uma das teses de nosso último Congresso, foi dito que nós deveríamos superar os “narcisismos das pequenas diferenças”. Concordo, mas em parte. Porque nossos narcisismos não são nada pequenos. São gigantescos! Sem entrar em meandros psicanalíticos, fiquemos somente com a descrição do mito. Narcísio foi um sujeito apaixonado por sua própria beleza. Incapaz de amar alguém, porque ninguém era tão belo quanto ele, Narcísio cumpriu o destino professado pelo oráculo Tirésias: sofrendo o castigo de um deusa em virtude de sua arrogância, apaixonou-se perdidamente por sua própria imagem refletida na água do leito de um rio, e por ali ficou até definhar. Este mito supõe ao menos dois movimentos: primeiro, Narcísio toma como paradigma de belo ele mesmo, e segundo, só aceita se identificar com aqueles que compartilham de seu paradigma, mas como ninguém é tão belo quanto ele (ele busca no Outro o espelho dele, embora a primeira notícia de sua beleza tenha vindo do Outro – este é o paradoxo narcísico), então ele só pode amar a si próprio – e assim ele definha na pura paralisia.

A verdade é dura: nós nos amamos. E nos amamos loucamente. Nós não fazemos passeatas, mas carnavais (temos até uma banda própria!). Quando olhamos ao longe alguém com a camisa “Não recebo um real, estou na rua por um ideal” (símbolo máximo de nossa herança pequeno burguesa), os olhos brilham. “Ora, mas qual o problema? Não é por isso que lutamos? Por mais amor?”. Pois é. A gente luta por mais amor em São Paulo, por exemplo, mas se lutássemos pelo o amor de São Paulo, o santo, até que poderia ser interesssante – um amor em Cristo, de um homem que morre na cruz, nega Deus e ressuscita, um objeto perdido que retorna, um amor intransitivo e universal. Mas não é esse o nosso amor. E o problema é que amor e política são dimensões da situação completamente diferentes. No amor, basta dois. Geralmente, quando grande, o seu ponto de basta vem da morte ou da traição. A política, não. Ela é imediatamente universal. Se um discurso que se diz político não for universal, ele não é um discurso político. E para ser universal, o seu ponto de basta, seu elemento dissensual, não pode ser contingencial, mas intrínseco e necessário. A política é universal na diferença. Quando amor e política se juntam, já sabemos o que vai dar: formação de massas (e massas podem ter 30 ou 30 milhões, pouco importa). A política não pode ser confundida como um avanço progressivo na história, porque sua forma é da repetição, e não da linearidade ou do acúmulo. E o que se repete? Se repete o elemento dissensual que impõe à história um constante reorganizar-se. Por isso que é uma tremenda furada ficar buscando a imagem do agente revolucionário. O militante surge do desejo de sustentar-se na tensão do dissenso com a situação.

Nós nos amamos: o que isso significa? Se é verdade que o amor é narcísico, então quando alguém ama, ama no outro aquilo que ele é, ou que imagina que é, que deveria ser, alguma caracterísitca específica etc. O que importa é que a referência é o eu, por mais que o sujeito não tenha a menor a ideia do que seja. Quando o amor se confunde com a política, cria-se um efeito muito complicado. Como são vários “eus”, então os sujeitos se identificam a aspectos específicos que suspostamente poderiam ser compartilhados por todos aqueles que formam o conjunto “aqueles que se amam”. São caracterísitcas muitas vezes sutis, imperceptíveis. Traços físicos, por exemplo. Roupa. Maneiras de falar. Enfim, qualquer traço peculiar de grupo. São significante soltos que têm efeito de coesão imaginária. Por exemplo, “Direitos Humanos”, “Estado Democrático de Direito”, “Gramsci”, “Somos todos [qualquer coisa]“, e por aí vai. Então sujeitos que não compartilham da importância destes significantes são considerados “de fora”. E a reação a estes “de fora” são as mais variadas, podendo oscilar do desprezo ao ódio. Mas, certamente, a repulsa é um afeto inevitável.

Vamos tirar nosso Macunaíma da caldeira. Por que odiamos tanto Daciolo? Porque ele não se encaixa na imagem de militante de esquerda que criamos. Confessemos, nos é insuportável escutar a a frase que ele repete de forma extremamente intensa: “Deus está no controle”. É o Deus das causas impossíveis. Não tem referência alguma a uma religião específica ou doutrina. Ele não está pedindo para crermos no Deus dele, não está pedindo para rezarmos etc. Um ateu pode ser objeto de amor deste Deus. E, no entanto, não suportamos. Por que? Porque ele é nosso elemento dissensual, a cena muda que não queremos ver

Uma provocação: e se classe trabalhadora que a gente insiste dizer que representamos não encaixar na nossa imagem de amor? E se ela amar Cristo com a mesma devoção que Daciolo? Vamos dizer “não entrem no Partido”? Vamos dizer “vocês precisam ser iguais a nós antes de entrar na militância”? Reflitamos: isso é uma posição verdadeiramente comunista?

Hoje, defender Daciolo é defender o Partido dele mesmo.

Carlos Pereira

Militante do Partido Socialismo e Liberdade 

5 comentários:

  1. Se ele é um gênio não sei informar,mas que ele está incomodando pessoas de seu partido isso está,principalmente Marcelo Freixo.

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  2. DACIOLO EU SOU ESPOSA DE BOMBEIRO, MORO NA BAIXADA FLUMINENSE PELO CONHECIMENTO, QUE EU TENHO NAS IGREJAS ENVAGELICA DA BAIXADA.NOS ENVAGELICOS VOMOS FAZER BAIXA ASSINADO PRA TIRA O MARCELO FREIXO DA SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS,QUE ELE SO DEFENDER BANDIDO .TODOS NOS ESTAMOS REVOLTADO COM ELE. VOMOS ENTREGA ASSINATURA BAIXA ASSINADO PRO PEZAO..
    DACIOLO SAIR DESSE PARTIDO ELES ODEIA ENVAGELICOS.

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  3. Daciolo é o pesadelo dos poderosos que a śeculos escravizam nosso Brasil. Talvez não seja ele a figura heróica que vai mudar o país, mas pode ser a semente...pode inspirar muitos outros...é um início de grandes transformações. O Brasil é o paraíso dos exploradores...dos que enriquecem as custas do suor dos que trabalham duro pra ficar com o mínimo. O povo sofre calado e a anos os poderosos trabalham para convence-lo de que sempre foi assim...nunca será diferente...reclamar é perder tempo e desperdício de energia. Agora surge uma voz que indica uma luz no fim do túnel.
    Por isso, enquanto Daciolo falar "o meu idioma", terá meu apoio.
    JUNTOS SOMOS FORTES

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  4. Gostaria de deixar meu desabafo em relação aos militares que sofrem com os remanejamentos e apos pagarem sua etapa não são regressados para sua obm e são obrigados a voltarem por meios próprios.

    Bombeiro guadalupe

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  5. Fiquem atentos para um audio que esta rolando pelo zap onde os traficantes estão com ordem de pegar policiais ,seap e bombeiros.

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