domingo, 22 de novembro de 2015

A comédia de Eduardo Cunha



Só mesmo a comédia de Eduardo Cunha para nos afastar um pouco da tragédia do Estado Islâmico. Se alguém tentar entender o que aconteceu ontem na Câmara dos Deputados, o vaivém de aberturas de sessões, manobras e quorums e recuos, decerto não entenderá nada. Não é para entender mesmo. É para dar risada.

Presidente da Câmara, Eduardo Cunha primeiro mentiu ao afirmar não ter contas na Suíça. Diante das evidências apresentadas pelo Ministério Público de contas dele, da mulher e da filha, apresentou uma desculpa em andrajos, na tentativa de dizer que não disse o que tinha dito. Falou que as contas eram de um “trust”, do qual ele era apenas “usufrutuário”, e que o dinheiro vinha da exportação de carne enlatada ou de um empréstimo que fora pago por um morto sem que ele soubesse ou sequer tivesse cobrado. Não entendeu? Não é para entender. É para dar risada.

Tenho algumas coisas a confessar. Não sei direito o que é “trust” – pelo visto, coisa boa não é. Não faço ideia do que signifique “usufrutuário”. Nunca comi carne enlatada, nem sabia que era exportada. Agora, não consigo mesmo é entender como alguém tão sagaz quanto Cunha pode receber o pagamento de um empréstimo de mais de 1 milhão de euros sem saber disso. É ou não é para dar risada?

Nada disso, é claro, tem importância para Cunha. Meses atrás, escrevi que havia um improvável alinhamento entre os interesses dele e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na época, Cunha era o principal articulador do impeachment da presidente Dilma Rousseff, e Lula, sobranceiro, mantinha uma distância profilática, não poupava críticas a Dilma nos bastidores, já que uma queda do governo DIlma, o mais impopular na história do Brasil, lhe facilitaria o caminho ao Planalto em 2018, pois ele não precisaria se apresentar como herdeiro dela.

E assim é o mundo da política. Cunha e Lula continuam alinhados. Alinhadíssimos. Só que, agora, na fila da Lava Jato. Um atrás do outro. Enquanto os rotores de felpas ensaboadas giram e começam a esfregar o primeiro, o segundo já sabe exatamente o que lhe espera. Isso não impede que ambos se unam para tentar evitar os jatos de detergente que vêm por aí.

Cunha vai arquivando pedido após pedido de impeachment, para garantir o apoio do PT no Conselho de Ética, onde tramita o processo de cassação de seu mandato. Diz que decisão sobre o assunto, só no ano que vem, afinal já estamos quase no Natal, depois vem o Ano Novo, aí você sabe, só mesmo depois do Carnaval. E manobra em cima de manobra para cancelar sessões, adiar votações, o escambau para se livrar.

Lula, ora, Lula está em plena campanha. Só isso explica sua vontade em dar entrevistas à imprensa depois de cinco anos quieto. Só isso explica a insistência em se afastar da política econômica de Dilma – com a sempiterna e jamais confirmada indicação de Henrique Meirelles para substituir Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. Sobre as investigações contra ele Ministério Público de Brasília, sobre a reforma do apartamento no Guarujá paga pela OAS, sobre as acusações contra um de seus filhos na Operação Zelotes, Lula disse apenas achar “grave o vazamento seletivo de algumas informações”. Confesso que também não entendo o que significa “vazamento seletivo” – talvez um furinho na mangueira do Lava Jato?

A economia não para de nos trazer más notícias. Não é preciso ser seletivo para encontrar algum indicador negativo – inflação? desemprego? crescimento? produção industrial? Pode escolher. Depois dos ataques em Paris, fiquei imaginando no que os terroristas poderiam armar para os Jogos Olímpicos do ano que vem. E se sequestrassem uma ponte-aérea e, em vez de pousar no Santos Dumont, derrubassem o Cristo Redentor, símbolo dos infiéis? Imaginem a reação de Dilma na Enterprise do Planalto. Será que estamos tão a salvo do Estado Islâmico quanto nos julgamos? Bem, não faltam problemas sérios para nos preocuparmos. Temos, no fundo, é de agradecer Cunha, Lula e companhia por aliviar a tensão e, no meio da tragédia, nos fazer gargalhar.

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