quinta-feira, 28 de abril de 2016

Após um dia inteiro de espera, inativos do Estado finalmente recebem o salário


Aliviado ao ver o salário na conta-corrente, o coronel reformado Mário disse: ‘vou pagar os meus filhos’ 

A expectativa de 137 mil aposentados e pensionistas do estado de receber o pagamento atrasado provocou uma corrida aos bancos ontem, mas só se concretizou após a prisão da gerente de uma agência do Banco do Brasil. A funcionária foi levada à 5ºDP (Mem de Sá) por um oficial de Justiça por desobediência à decisão do juiz Felipe Pinelli, da 10ª Vara de Fazenda, de arresto das contas do estado no valor de R$ 648.724.494,79. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal tinham que repassar o dinheiro do Estado para o Bradesco poder depositar os salários. O Banco do Brasil pediu à Justiça que reconsiderasse a decisão, já que o dinheiro não poderia ser liberado para o pagamento deste tipo de despesa. O pedido foi negado.

Devido ao impasse, os salários só começaram a ser depositados ontem, após o fim do expediente bancário, mas apenas para contas do Bradesco. Correntistas de outros bancos só receberão hoje.


Mário precisou recorrer aos dois filhos para pagar as contas Foto: Urbano Erbiste / Extra

O coronel da PM reformado Mário Augusto Leitão Filho, de 73 anos, foi várias vezes checar se o salário havia sido depositado. Apenas às 18h30m, ele viu o dinheiro na conta, numa agência do Bradesco no Méier, na Zona Norte.

— Agora, vou pagar os meus filhos. Quem está segurando a onda são eles. Se não fosse por eles, acho que eu teria que colocar a farda de coronel e vender ovos na feira — disse o aposentado, numa referência ao bombeiro reformado que vendeu ovos em uma feira, em Belford Roxo.

Desconto no salário e ainda multa por calote do Estado

Enquanto o governo deixa Mário entregue à própria sorte, ele ainda vê descontados 11% da sua remuneração, que vão para o Rioprevidência, e cobrança de multas em seus empréstimos consignados que teriam que ser pagas pelo governo.

— Esse empréstimo consignado aqui, por exemplo, descontado em folha, tem duas multas por atraso no total de R$ 294. Liguei para o banco para perguntar o que era e eles falaram que é porque o Estado não repassa o pagamento — conta Mário.

Depois de 32 anos de serviço na Polícia Militar e, até agora, mais 27 anos de aposentadoria, o morador do Méier conta que jamais esperaria ter que depender dos filhos para comer e pagar contas como água, luz e telefone.

— É um momento realmente estranho. Nós já estávamos acostumados a entrar no site do Rioprevidência ou da Seplag e ter o calendário de pagamento do ano inteiro. Então, você organizava a sua vida — avalia.


Gumercindo foi três vezes ao banco e nada do pagamento Foto: Urbano Erbiste / Extra

DEPOIMENTO: Gumercindo Melo - Professor de História aposentado, 69 anos

“Acabei de ver a conta e o salário não caiu ainda. É a terceira vez que eu venho. Eu só tenho condições de pagar as minhas contas porque eu tenho outra renda. Tenho duas aposentadorias: uma pelo Estado e outra do município. Mas, se demorar muito a entrar o salário, a minha situação vai piorar... Não estou com as contas atrasadas, mas eu tinha até um investimento programado, com o dinheiro da aposentadoria do Estado, e tive que adiar a aplicação por causa do que está acontecendo. Eu trabalhei por 35 anos como professor de História e me aposentei há dois anos, porque quis. Uma coisa é certa: isso nunca aconteceu antes. Nem na época do Sarney, com aquela inflação toda. Nunca vi uma pontualidade tão grande como o do funcionário público. Agora, os governantes estão se comportando como vândalos. São vândalos de gabinete”.

OUTROS DEPOIMENTOS: O desespero de quem espera o salário

“Eu vim ao banco ver se o Estado fez a parte dele. Eu fiz a minha por 38 anos. Acabei de ver a conta e não recebi (às 15h30m). Eu não sei o que vai acontecer. Fica difícil você acreditar em uma instituição que não cumpre o que diz. Isso foi uma determinação judicial e, mesmo assim, o dinheiro não caiu na conta. É uma calamidade” - Carlos, clínico geral aposentado, 66 anos

“Sou pensionista do Estado e também professora aposentada pelo município. Mas não dá para ficar esperando. Sou hipertensa e tenho problema na coluna. Com a aposentadoria, paguei as principais contas. Mas estou esperando o dinheiro do Estado cair para eu fazer compras. Estou sem comida dentro de casa. É um absurdo”, X. Pensionista, 70 anos

“Minha conta é do Itaú. Até agora (20h34m), o salário não entrou. É humilhante. O meu filho tinha vendido um carro dele e eu falei “me empresta um dinheiro para eu poder arcar com as minhas responsabilidades”. Eu fiquei tetraplégico em 1990, ao tomar um tiro no pescoço, num tiroteio em Volta Redonda. Gasto R$ 800 por mês só com medicamentos” - Marcos Antônio Barros, PM aposentado por invalidez, 51 anos

FONTE: EXTRA

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