domingo, 18 de dezembro de 2016

Servidores sobrevivem de doações e fazem rifa para pagar contas: ‘Natal da miséria’


Mariah Casanova 

Com os vencimentos de novembro parcelados, e nenhuma previsão de receber ao menos parte do 13º salário, os servidores públicos do Estado do Rio se preparam para um Natal sem comemorações. Entre as categorias, o clima é de companheirismo diante dos problemas financeiros que muitos estão enfrentando. Aos 66 anos, Mariá Casanova, a Dona Mariá, como é conhecida entre os servidores, chora ao falar das dificuldades que passa.

— O que vamos ter este ano é a ceia da miséria, a miséria em que este governo nos deixou. Pagar os salários em dia é obrigação de qualquer governo. E não estão cumprindo essa obrigação básica — disse a funcionária da Secretaria de Saúde.

Emocionada, Mariá mostrou a rifa com a qual pretende sortear um conjunto de cama, com lençol e fronhas. Ela cobra R$ 10 de quem se interessa pela oferta. O dinheiro arrecadado, segundo ela, servirá para alimentação e para quitar contas de luz atrasadas em mais de dois meses:

— Já estou sofrendo com uma ação de despejo por parte da proprietária do meu apartamento. Não pago aluguel há dois meses. Vou ficar sem ter onde morar, e ainda devendo contas de luz, água e telefone.


Ivan Costa

O Movimento Unificado dos Servidores Públicos Estaduais (Muspe) tem auxiliado os mais necessitados. É comum a retirada de cestas básicas na sede do Sindicato dos Judiciários (SindJustiça-RJ). Na sexta-feira passada, por exemplo, o pensionista Ivan Costa, de 36 anos, foi retirar sua cesta básica:

— É um alento diante de tanta tristeza. Eu não penso no Natal que vou ter. Minha maior preocupação é reparar minha casa. Sem a pensão, não tenho como consertar os estragos da chuva desta semana.

Tanto Mariá quanto Ivan receberão seus proventos de novembro de forma parcelada, até 17 de janeiro.

Comércio prevê perdas sem funcionalismo

A receita gerada pelos servidores públicos já é considerada perdida pelo comércio no estado. Para o presidente do Clube dos Diretores Logistas do Rio (CDL-Rio), Aldo Gonçalves, a previsão é de retração do setor em comparação ao ano passado.

— Tínhamos uma previsão otimista de crescimento de 1% neste fim de ano. Hoje, com os servidores sem salários e 13º, esperamos uma retração — disse Gonçalves, sem antecipar os valores que deixarão de circular.

Segundo o dirigente, a crise que afeta o serviço público estadual atrapalhou o ano todo do comércio fluminense.

— Não tivemos resultados positivos em nenhuma data comemorativa: Dia das Mães, dos Pais, das Crianças... Em todos os momentos, tivemos perdas — avaliou.

O pensionista Ivan Costa diz que não há como pensar em comprar nada além do básico neste momento:

— Recebo pouco mais de um salário mínimo (R$ 880), e o dinheiro já é parcelado. Não tem como pensar em nada além de alimentação e moradia.

Nelson Pereira

Aposentado do Tribunal de Justiça do Rio, 77 anos

‘A tendência é que tudo piore em 2017’

Neste último mês, a crise já começou a nos afetar. Eu, por exemplo, demorei quase 20 dias para receber minha aposentadoria como técnico judiciário. Estou sempre na Alerj para acompanhar as decisões que mudarão nossas vidas. Infelizmente, a tendência é que tudo piore nos próximos meses. Vamos esperar para ver como serão pagos os salários em 2017.

Ivan Costa dos Santos

Pensionista da Polícia Militar do Estado do Rio, 36 anos

‘Não tenho ideia do que vou comer amanhã’

Moro em Coelho Neto com uma tia e, por sorte nossa, não pagamos aluguel. Mesmo sem essa despesa, não sobra nada para o mês. Não tenho nem ideia do que vou comer amanhã, imagina na ceia de Natal. Para me alimentar, dependo da ajuda de vizinhos. Mas isso não acontece sempre. Se nada for feito, as pessoas (os servidores estaduais) não terão o que comer.

FONTE: EXTRA

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