domingo, 30 de abril de 2017

Protestos podem influenciar votação das reformas no Congresso

Cientistas políticos comentam a repercussão das manifestações de sexta-feira

Após a greve geral realizada nesta sexta-feira (28), marcada pelos protestos em diversos estados e pelo confronto entre policiais e manifestantes, principalmente no Rio de Janeiro, analistas avaliam que o quadro apresentado aos parlamentares que devem votar as reformas trabalhistas e da Previdência foi alterado.

Apesar de declarações como a do ministro da Justiça Osmar Serraglio, para quem a greve foi um “fracasso”, especialistas em Ciência Política apontaram que votar a favor das duas reformas neste momento de ebulição social pode ter consequências nas eleições. “Por interesse, eles aprovariam tudo com tranquilidade. Mas existe a preocupação eleitoral”, afirmou o professor de Ciência Política da Unirio Guilherme Simões Reis.

“Os deputados e senadores sabem que votar a favor dessas reformas vai fazer com que eles passem como alguém que está contra a população. Eles sabem que as chances de se eleger despencam. Então, a alta adesão à greve torna muito mais difícil apoiar um corte de direitos dessa dimensão. O custo eleitoral fica alto”, complementou.

Sobre a atuação da polícia durante os protestos, a professora de Ciência Política Clarisse Gurgel - também da Unirio - afirmou que esta é uma estratégia do governo que tem um índice de aprovação muito baixo. “Um governo com 4% de aprovação, sem base de apoio na sociedade, sem legitimidade e sem diálogo com os trabalhadores, tem como estratégia criar um clima de pânico. Este é o único legado da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, o aparato repressor estatal.”

Guilherme comentou também a repressão policial aos manifestantes no Rio de Janeiro, especialmente na Cinelândia, onde houve forte confronto e feridos. “Para o governo, é melhor afastar as pessoas do que permitir mais gente na rua. A mobilização pela greve geral foi muito alta, não só de adesão, mas de apoio. Se antes a adesão era muito fraca, no caso do golpe no ano passado - até pela impopularidade da ex-presidente Dilma - agora é diferente. É muito mais concreto para os trabalhadores entenderem que eles estão perdendo seus direitos, que não vão conseguir se aposentar”, analisou.

O professor Guilherme também lembrou a questão das faixas deixadas na frente das vidraças quebradas dos bancos, com dizeres que apontam a inadimplência das instituições, como dívidas milionárias de não pagamento de impostos. “Acho a estratégia das faixas inteligentíssima. Essa é uma forma inteligente de diálogo com a população, pois deixa claro os motivos dos manifestantes ao quebrar as vidraças dos bancos”, afirmou.

O professor comentou também o posicionamento do presidente Michel Temer, que criticou o movimento afirmando que ele atrapalhou o “direito de ir e vir”. “Qualquer argumento de violação à lei é hipócrita, pois ele fez um golpe de estado. Não acredito que houve excessos, não faz sentido uma greve que não incomode ninguém. Greve é uma forma de pressão. É óbvio e fundamental que os transportes parem. Greve é para pressionar, é um instrumento dos trabalhadores para fazer valer seus direitos. Se o presidente afirmou isso e lamentou a questão do direito de ir e vir, é porque a greve foi um sucesso”, concluiu.

Para Clarisse, a sexta-feira da greve geral indica um retorno da política na sociedade civil. “Agora a adesão à greve extrapolou a vanguarda. Escolas particulares e tribunais de Justiça pararam. Além de categorias históricas na luta e que estavam apáticas como a dos rodoviários. Quando digo, porém, que isto não basta, é porque o governo e o grande empresariado precisam sentir que o povo não resiste apenas, mas também tem força para se insurgir. Os poderosos precisam sentir que correm risco de perder o poder.”

E ela concluiu: “Para isto, os que resistem precisam se organizar coletivamente. Só assim, a ação conjunta assume uma direção estratégica, rumo ao projeto de país desejado pelos que trabalham.”

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