domingo, 27 de agosto de 2017

‘O produto Rio é um ativo incrível’



O Rio pode sair da crise pela qual está passando?


A visão que eu tenho é que a gente pode virar o jogo e vai sair disso.


Em quanto tempo?


A prioridade é estancar a sangria. E há ainda um trabalho de médio e longo prazos. Represento uma pequena parte da sociedade civil e consegui estruturar uma plataforma concreta para sair rapidamente da crise aguda que estamos vivendo. O produto Rio de Janeiro é um ativo incrível e vale mais R$ 25 bilhões do que há quatro anos atrás.


Você se refere ao legado olímpico?


A Olimpíada injetou uma cidade nova. O sistema de transportes, por exemplo, está melhor. Do ponto de vista do turismo, tudo que podíamos sonhar está feito. O que falta é conteúdo. Não é verdade que a situação que vivemos, do ponto de vista de segurança, esteja impedindo as pessoas de virem para o Rio. Se eu tivesse mais 300 mil bilhetes para o Rock in Rio, teria vendido. Teremos 700 mil pessoas no evento, e mais da metade é de fora do Rio. Vendemos os ingressos no auge do tiroteio, e, pela primeira vez, o mercado de fora é maior que o do Rio.

Como explicar, então, que o mercado hoteleiro esteja só com 50% de reservas para o carnaval e o réveillon? Tem a ver com a natureza do evento?


Não. O carnaval é um evento mais importante que o Rock in Rio. O carnaval injeta na economia R$ 3 bilhões. Acho que a ocupação dos hotéis não vai ficar no que está. Mas não é só de Rock in Rio, carnaval e réveillon que a cidade tem de viver. Temos que ter um programa. Como a gente pode fazer essa máquina funcionar? Pensei: vamos fazer um calendário de eventos para valer. Não só fazer, mas comunicar o calendário Rio de Janeiro a Janeiro.

Você pensou nesse projeto antes de passar a integrar o conselho de turismo da prefeitura?


Nunca houve um conselho oficial. A gente se reunia. O Ricardo Amaral me chamou para fazer um grupo de trabalho: eu, ele, o Boni e o Paulo Protásio (presidente da Associação Comercial do Estado do Rio de Janeiro). Fiz o calendário com eles. Aí, chegamos a uma segunda questão: o problema de segurança. Então, fiz uma carta aberta ao presidente, publicada nos jornais, e ele nos chamou. Fui várias vezes a Brasília conversar com o pessoal de segurança. Depois, as críticas na imprensa começaram a ficar maiores. E isso tudo junto levou o governo federal a mandar as Forças Armadas para cá. As Forças Armadas não estão fazendo um favor ao Rio. Combate a narcotráfico e armas pesadas é com elas. Quando vão justificar o investimento que fazemos nelas? Quando a gente atacar os Estados Unidos? A hora é agora. Temos que apoiar.

Como foram os entendimentos com a prefeitura para implantar o calendário?


Comecei a conversar com a prefeitura sobre investimentos. Por questões de contingenciamento, isso não pôde avançar. Mas, atendendo a uma sugestão minha, o prefeito Marcelo Crivella contratou a Fundação Getulio Vargas (FGV). A entidade fez um estudo e constatou que, com um investimento público de R$ 200 milhões no calendário de eventos, o projeto poderia resultar num aumento de, no mínimo, 20% no número de turistas. Isso significa 160 mil empregos e R$ 6,4 bilhões na economia do Rio em um ano, além de um retorno para a prefeitura de R$ 170 milhões em impostos.


O investimento público é especificamente em quê?


Em patrocínio. Por ano, o governo federal investe, por meio de suas empresas, R$ 1,3 bilhão em patrocínios. A minha proposta é carimbar R$ 200 milhões para o Rio. O Moreira Franco (ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência), em nome do presidente, adotou o projeto. O calendário começou a ter vida, ganhar cor, por um outro caminho.


O governo federal já chancelou o projeto?


O governo federal está nisso. Meu sonho é fazer uma coletiva, no último dia do Rock in Rio, apresentando o calendário. E não é um calendário fechado. Vamos ter que abastecer o avião em voo. Se você for fazer um calendário fechado, não lança nunca.


O calendário começa quando?


Num esquenta do calendário, estou tentando fazer, já em novembro, o Rio Shopping Show, para mostrar que o Rio está bonito e barato. Queremos botar 300 músicos na rua tocando o mês inteiro. Já fiz contato com hotéis, shoppings e empresas aéreas, e eles aderiram. A ideia é o Rio ficar imbatível em termos de preços.


Que novos grandes eventos o calendário prevê?


Nos fins de semana de outubro do ano que vem, haverá um quase do tamanho do Rock in Rio, destinado a um público mais jovem. Ele é de música, mas é também uma história da civilização de um planeta que eu inventei, chamado Zaytrons, da constelação de Andrômeda, que veio à Terra há uns 70 anos.

O GLOBO está realizando o seminário “Reage, Rio!” Você está atuando com empresários do turismo, da indústria da criatividade. Identifica outros setores que também poderiam produzir projetos?


Acho que há. Mas, quando se começa a olhar o tipo de investimento e a depressão econômica por que estamos passando, não consigo ver a curto prazo.

A segurança é uma questão das mais sensíveis. Como ‘‘vender’’ o calendário dentro desse contexto?

A gente tem que chamar as Forças Armadas a sério nisso. Elas têm 28 mil homens no Rio. Ou seja, precisam fazer um trabalho ostensivo nas regiões turísticas ou agir em outros locais para deixar a polícia se concentrar nas áreas turísticas. Diria que, se eu não tiver uma sinalização de que haverá segurança, não vou fazer o projeto. Não é possível perder uma cidade assim, não é possível que a gente não se mexa. Ou a cidade muda, ou eu me mudo.


É como se fosse seu último suspiro?


Sessenta por cento do meu tempo é dedicado a isso. É reunião com segurança, com o prefeito... E estou no meio da organização do Rock in Rio, um evento que tem uma complexidade que vocês conhecem.


Você tem medo de sair às ruas?


Quando papai (o empresário Abraão Medina) era rico, eu morava numa casa no Bairro Peixoto. Em cima do Túnel Velho tinha uma favela. Eu jogava pingue-pongue lá todos os dias. Não tinha a questão de segurança. Sou meio destemido nisso aí. Acho que, com a violência, a gente está amesquinhando, empobrecendo, perdendo a vida.


Você foi sequestrado em 1990. Como isso te marcou?


O que ocorreu mudou minha percepção. Dois ou três dias depois de sair do cativeiro, um repórter pulou o muro da casa do meu vizinho para fazer uma matéria comigo. Ele me disse: “Imaginava encontrar um cara morto aqui e você está com uma vitalidade...” Eu falei: “Estou muito feliz, porque eu estou vivo”. Foram 16 dias de cativeiro. Quando saí, fiquei tão feliz de estar vivo, de olhar as flores, que fiquei de bem com o mundo por um tempo.

O sequestrador te deu um gavião na hora da libertação. Que fim teve a ave?


Ele morreu de velho. Essa história é surreal. Sem qualquer explicação o cara disse: “Você tem que ficar. Se der o gavião, a gente vai matar você, sua família. Eu só disse: “Está bom”. Botei o gavião em casa num lugar que eu não o via. Uns seis meses depois do sequestro, um superintendente do Ibama me ligou: “Seu Medina, desculpa incomodar, mas o senhor sabe que é proibido gavião em cativeiro?” Respondi que odiava o gavião, que ele poderia levá-lo, mas que eu precisava de uma carta assinada por ele. Ele perguntou: “Mas por que uma carta?” Expliquei que o bandido ameaçou me matar se eu desse o gavião. Aí ele disse: “Seu Medina, pensando bem, que se dane. Não vou tocar nesse assunto, não”. Passado um ano, ligaram do Ibama, de Brasília. O diretor disse: “Senhor Medina, desculpa incomodar. Eu queria falar sobre o processo 8.433”. Perguntei do que se tratava o processo. “É sobre um gavião em cativeiro”, respondeu. “Já disse para outro cara. Não tem problema. Assina a carta e leva esse gavião daqui”, falei. Ele encerrou o assunto: “Vou rasgar esse processo”. Isso é Brasil.


Você acha que há pouca mobilização da população hoje?


Tem uma questão. A Zona Sul, que é mais instruída, é muito culpada pelo que o Rio está passando. Sempre foi mais bacana, no botequim, ser de esquerda do que de direita. Isso é uma bobagem. Se a esquerda é séria, quer justiça social. Se a direita é séria, quer justiça social. Se as pessoas forem sérias, podem trocar ideias e fazer um projeto juntos.


Entrevista com Roberto Medina




Fonte: EXTRA

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