domingo, 3 de dezembro de 2017

Parte comunicador, parte político, Wagner Montes herda a presidência da Alerj em meio a problemas de saúde

Wagner Montes (PRB) assumiu a presidência interina da Alerj


De cadeira de rodas, empurrada por um assessor, Wagner Montes (PRB) entra em seu gabinete, no terceiro andar do Palácio Tiradentes. A voz, ainda fraca, se soma à respiração lenta e relembra os problemas de saúde que o deixaram 40 dias no CTI há oito meses. Antes do início da entrevista, o deputado e apresentador de TV pede um maço de cigarros e acende um deles ali mesmo, na sala fechada. Após quatro tragos, a bituca é despejada, ao lado de outras três, no cinzeiro sobre a mesa.

— Meu avô enfileirava um Caporal Amarelinho atrás do outro, aquele que chamavam de arrebenta-peito, e morreu com 102 anos —galhofa ele, sobre o hábito de fumar apesar do estado debilitado.





Em meio à recuperação, que inclui três sessões semanais de fisioterapia — Wagner também teve a perna direita amputada abaixo do joelho em 1981, após um acidente de triciclo —, o parlamentar, vice-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), viu o comandante máximo da Casa, Jorge Picciani (PMDB), ir parar na prisão com dois colegas de partido. Para comandar a polêmica votação que decidiu pela soltura do trio, obrigado pela Justiça a voltar para a cadeia em seguida, Wagner precisou encurtar uma viagem com fins de reabilitação ao Paraguai e suspender uma licença médica. Já no plenário, graças à falta de acessibilidade, foi carregado no colo até a cadeira do presidente, que passou a ocupar desde então.



Embora reconheça que a saúde fragilizada afeta o trabalho como mandatário interino, Wagner Montes promete dar foco, até o recesso parlamentar, à votação acerca das contas do governo do estado em 2017 e à criação de um Fundo de Segurança para o Rio. Diante da pergunta sobre a possibilidade de submeter ao crivo da Alerj um dos pedidos de impeachment contra o governador Luiz Fernando Pezão, o político, talvez na primeira ocasião ao longo da conversa, se sobrepõe claramente ao comunicador boa-praça e brincalhão.

— Vale a pena, a seis meses da eleição, colocar mandato tampão? Não farei graça com ninguém, mas estou com a população — desconversa.





Troca de partido teria sido ordem de emissora

Nem Wagner Montes nega que as quatro décadas como repórter e apresentador impulsionaram a carreira fora da telinha. Não por acaso, a faceta política e a de celebridade volta e meia se fundem. Mais de um entrevistado para essa reportagem relatou ao EXTRA uma cena que ocorre com frequência nos corredores da Alerj: o deputado exibe o contracheque da Record, emissora da qual é contratado há quase 15 anos, e garante que, com o que ganha, não precisa se vender “feito uns e outros”.

Reforçada regularmente pelas votações isoladas dentro da bancada do PRB, a alardeada independência, entretanto, já sofreu alguns arranhões. Carlos Lupi, presidente do PDT, sigla pela qual Wagner foi eleito em 2006, relata um diálogo que teve com o amigo pouco antes do pleito seguinte:

— Ele falou: “Ou troco de partido, ou perco meu programa”. E eu entendi, claro.

Especulava-se, à época, que a Record teria imposto uma filiação ao PRB, ligado à Igreja Universal, o que só aconteceu ano passado, após passagem pelo PSD. O deputado nega coações por parte da emissora e garante que a ida para o PRB às vésperas da eleição municipal, com Marcelo Crivella candidato a prefeito, foi “apenas coincidência”.



Biografia omite estreia como parlamentar

Ao contrário do que diz a biografia do parlamentar no site da Alerj, a primeira experiência do apresentador como candidato não se deu em 2006, quando foi o terceiro deputado estadual mais votado — desempenho que melhoraria em 2010, com recordes nas urnas, e se manteria quatro anos depois. Em 1990, Wagner disputou o mesmo cargo pelo PTB e foi escolhido por 11.041 eleitores, cerca de 2% de sua votação 20 anos mais tarde.



Quarto suplente numa coligação que tinha ainda o PFL (hoje DEM), Wagner Montes assumiu a vaga na Alerj no meio da legislatura, e por ela passou sem grande destaque. Na reta final do mandato, contudo, o nome do parlamentar foi citado numa lista de doações feitas pelo bicheiro Castor de Andrade, tornando-o parte de um escândalo que abalou a política fluminense — ele garante não ter recebido nada do contraventor. A trajetória como deputado só seria retomada dali a 12 anos.




A nova chegada à Assembleia do apresentador, marcado pelo tom policialesco e belicoso na TV, gerou apreensão em Marcelo Freixo (PSOL), que estreava na Casa. Os dois não só tornaram-se próximos nas votações como construíram uma inesperada relação de afeto. É comum ouvir Wagner Montes contar o que aprendeu com o colega sobre direitos humanos e se gabar de ter sido o único deputado fora do PSOL convidado, em 2010, para o casamento do socialista.

— Gosto muito do Wagner. Ele está aí, com a saúde debilitada, e mesmo assim é mais assíduo do que muitos dos nossos pares — frisa Freixo.





Fonte:  EXTRA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"O Estado não tem poder algum sobre a palavra, as idéias e as convicções de qualquer cidadão dessa República e de profissionais dos meios de comunicação social." (Ministro Celso de Mello - Supremo Tribunal Federal) - Se identifiquem por gentileza, comentar não é crime!MUITO IMPORTANTE: O foco do movimento é a DIGNIDADE. E é para esse objetivo que o blog existe. Por isso, comentários que não compartilhem do mesmo objetivo poderão ser removidos. Não podemos publicar ofensas! Não insista! Defenda sua ideia ou crítica de forma respeitosa.