sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Defensoria Pública: atendimento precário do Samu coloca a população em risco

Além da falta de ar-condicionado, há relatos de demora no atendimento e pneus carecas



"A população do Rio está em risco à medida que esse serviço vem sendo feito de maneira precária. Já tivemos caso de paciente ser atendido em um papelão porque não havia maca". A declaração é da coordenadora de Saúde e Tutela Coletiva da Defensoria Pública do Rio, Raphaela Jahara, sobre o sucateamento das ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), prestado pelo Corpo de Bombeiros do estado.
Nesta quarta-feira, O DIA revelou a prisão de um médico da corporação, lotado no quartel do Méier, por se recusar a sair em uma ambulância da unidade que estava sem ar-condicionado, o que é proibido por lei. No quartel, havia outra viatura com o mesmo problema. Segundo relatos, a sensação térmica dentro da viatura sem ar chega a 50 graus. "Na verdade, ele (o médico) estava velando pela integridade física do paciente", disse a defensora. 
A defensora vai oficiar o caso aos órgãos competentes. Segundo Raphaela, a falta de estrutura nas ambulâncias do Samu não é novidade. "Esses problemas são antigos. Já estamos cobrando e monitorando isso há tempos, mas, diante das novas denúncias, vamos, de novo, mandar ofício exigindo melhorias", contou Raphaela.
Há denúncias de outras ambulâncias sem refrigeração e até de viaturas com pneus carecas. O DIA teve acesso a pedidos de conserto do ar-refrigerado de, pelo menos, três ambulâncias nos quartéis de Guadalupe, Santa Cruz e Ramos. As solicitações foram no final do ano passado para as viaturas SB-214, SB-216 e SB-219. 
O DIA esteve na tarde desta quarta na oficina para onde uma das viaturas do Méier foi levada para conserto, na Ilha do Governador. Pelo menos três ambulâncias do Samu, além de outras descaracterizadas, estavam no pátio do estabelecimento.
Associação dos Bombeiros Militares do Estado do Rio de Janeiro (Abmerj) vai encaminhar, hoje, ofício ao comando do Corpo de Bombeiros e pretende também acionar o Ministério Público e a defensoria. "Vamos solicitar imediatas providências para que situações como essa não ocorram novamente", disse o o presidente, o presidente da associação, Mesac Eflain.
Segundo ele, a associação já recebeu muitos relatos sobre a falta de ar-condicionado nas ambulâncias, incluindo casos de pacientes que se recusaram a embarcar na viatura sem refrigeração. "O caso do Méier não é novidade para nós. Quase todos os dias recebemos denúncias de ambulâncias rodando com ar-condicionado quebrado. Inclusive, temos relatos de pacientes que se recusaram a ser transportados nessas condições", contou ele.
A demora na chegada do socorro aos locais foi outro problema relatado pela defensora. "Há um tempo grande deslocamento das ambulâncias de um lugar para o outro e isso se deve ao número baixo de viaturas para atender a população. O Rio tem apenas uma ambulância neo-natal", revelou a defensora.
Segundo a Abmerj, o serviço deveria ter uma média de 75 ambulâncias atendendo à população, porém, há cerca de 39. Já a assessoria de imprensa do Corpo de Bombeiros informou que o estado conta com 148 ambulâncias operantes e 15 inoperantes (não, exclusivamente, por conta de ar-condicionado). A assessoria da corporação disse ainda que a instituição receberá 30 novas ambulâncias compradas com recursos da taxa de incêndio e que parte dessa frota será entregue amanhã. A corporação nega a prisão do médico bombeiro.
O Rio é a única cidade do país onde o Samu é operado pelo Corpo de Bombeiros. O serviço em outros lugares é de atribuição das prefeituras. "O fato dos dois serviços 192 e 193 serem prestados pelos bombeiros precariza o atendimento", atesta a defensora.  
Essa vinculação dos dois serviços ocorreu no governo Sérgio Cabral com o então secretário de Saúde Sérgio Côrtes. Cabral está condenado a mais de cem anos por corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Cortes responde a processo por corrupção ativa, passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Em nota, o Ministério da Saúde ressaltou que é decisão dos gestores definir como irá funcionar o serviço.
FONTE: O DIA